Muramatsu Ken: o jazz japonês e seu reflexo na industria dos animes


Isso pode surpreender aqueles que associam inconscientemente a música japonesa a arranjos antiquados e monótonos ou, no pior dos casos, a indústria das idols, que produz incessantemente cantoras e grupos de veia artística questionável, mas o fato é que o jazz, desde os tempos áureos do bebop e do free, é bastante expressivo na indústria fonográfica nipônica.

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Dave Brubeck Quartet – Jazz Impressions of Japan

 
Mais do que um pianista brilhante, David Warren Brubeck é também um herói de guerra que, sem discursar sobre palanques, tornou-se um dos grandes ativistas pelos direitos dos negros norte-americanos. Sua história pode ser facilmente encontrada em passeios pela internet, mas há uma parte crucial desta que poucos, como o cineasta Ken Burns em sua obra-prima “Jazz”, o maior documentário sobre o gênero já realizado, se preocupam em contar: Ao combater na Segunda Guerra Mundial, Brubeck integrou algumas das lendárias bandas que, em meio à matança desenfreada, erguiam o ânimo das tropas com o jazz comercial do período, o swing. Embora os EUA fosse ainda um país absolutamente racista, brancos, como o Brubeck, e negros norte-americanos, isolados, sem perspectiva de retorno, lutaram e fizeram música lado a lado durante aquele período. Porém, de volta à América, vencida a “xenófoba” ameaça, Brubeck descobriu que o preconceito em seu próprio país em nada havia mudado.


No auge dos anos 1940, desde as big bands até os pequenos grupos de maior sucesso eram compostos uniformemente por artistas brancos. Inaugurada décadas antes, ainda reinava a distinção entre o jazz branco, que dominava as rádios, e o jazz negro, segregado, perseguido (fato que é bem ilustrado no recente e magnífico Sakamichi no Apollon), embora evidentemente mais poderoso, complexo e visionário. Brubeck, inconformado com a hipocrisia da industria fonográfica, que excluía dos holofotes voltados ao jazz seus criadores, e da sociedade estadunidense como um todo, que permitia que se morresse ao lado de soldados negros, mas repreendia quem tentasse fazer arte junto a eles, foi um dos primeiros a romper com esse sistema. Foram inúmeros os entraves iniciais; num primeiro momento, gravadora alguma se dispunha a assinar com seu quarteto inter-racial. Entretanto, anos depois, alcançando o sucesso, a integração promovida por tal formação abriu caminho para que, enfim, os negros protagonizassem o cenário musical de um estilo por eles desenvolvido mais de meio século antes.
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