Muramatsu Ken: o jazz japonês e seu reflexo na industria dos animes


Isso pode surpreender aqueles que associam inconscientemente a música japonesa a arranjos antiquados e monótonos ou, no pior dos casos, a indústria das idols, que produz incessantemente cantoras e grupos de veia artística questionável, mas o fato é que o jazz, desde os tempos áureos do bebop e do free, é bastante expressivo na indústria fonográfica nipônica.

A disseminação do jazz na Terra do Sol Nascente se deu nos mesmos cenário e período que a ascensão do mangá – semeando nos anos 1950 e 1960 para colher memoráveis frutos nos 1970. A coexistência de movimentos artísticos tão distintos se explica por meio do já conhecido fator da absorção cultural, que, dando-se em um Japão rendido e ao enfrentar um árduo processo transformação sociocultural, elevou os EUA ao posto de maior exportador e fonte renovadora do até então recluso arquipélago. Incontáveis tendências surgiram nessa época; algumas vazias, outras, como o culto ao jazz, vindouras.

Os japoneses passaram a ouvir jazz, e, em não muito tempo, a tocá-lo – alguns com maestria digna dos mestres ocidentais. Muitos desses mestres, tal qual MilesDavis, Pharoah Sanders e Thelonious Monk não negligenciaram o cenário japonês. Ao contrário, foi na Europa, América Latina e Japão que o jazz resistiu frente à estagnação que abateu a vertente em terras norte-americanas a partir da década de 1970, em decorrência do vertiginoso crescimento do pop e do rock. E mesmo antes disso, como Wayne Shorter evidencia em sua Oriental Folk Song, havia algo precioso a ser observado além do oceano.

 O jazz asiático, com sua técnica impecável e mais disciplinada que os tufões modais do ocidente, muito acrescentou à produção global, soprando novos ares com o uso mais harmônico de flauta e instrumentos característicos do oriente. No entanto, talvez mais importante que seus feitos passados, seja a longevidade do jazz japonês, que, nascendo nas assustadoras seções rítmicas de SadaoWatanabe e Terumasa Hino e permanecendo nas melodias provocantes de Sleep Walker ou nos enérgicos refrões do Tokyo Jihen, continua vivo.

O jazz, não só no Japão, perdura. Porém, sua produção e seu alcance jamais voltarão a ser como outrora. Após os anos 1970, outros estilos e subculturas surgiram sucessivamente, ofuscando ainda mais algo que há muito padecia de público. Por fim ocorreu o inevitável: o gênero se fechou em seu nicho, passando gradualmente a ser visto como um estilo musical rebuscado e, talvez pela duração de suas faixas, talvez pela pouca padronização, aversivo à geração videoclipe que emergia.

Embora alguns grupos, como o ousado Jamiroquai e outros adeptos do acid jazz (vertente mais pop e dançante fortemente ligada à musica eletrônica e hip-hop) consigam trazer um pouco das raízes à tona, muitos dizem, com sua pitada de razão, que aqueles que fazem jazz em pleno século XXI nasceram fora do tempo.

Talvez seja verdade. É. Pode ser. Fosse esse o caso, eu me veria obrigado a fazer uma lista de agradecimento a esses insistentes e obsoletos artistas. E Muramatsu Ken, pianista e compositor de talento irrefutável, teria um lugar de destaque nessa lista.

 Nascido em 9 de maio de 1962, Muramatsu Ken é, como o vídeo acima exemplifica, um artista que amalgama estilos que vão das mais eruditas bases rítmicas às levadas características da bossa-nova, em seu tom particular. Vindo ao mundo em tempos de produção frenética, Muramatsu teve uma juventude regada a jazz. E, embora no início de sua carreira o movimento já rumasse à estagnação, foi essa a vertente por ele escolhida para edificar em sua carreira.

Dono de uma discografia extensiva, seu trabalho é referência entre os pianistas contemporâneos, assim como no quadro geral do fusion e do jazz rock.  Familiarizado tanto com instrumentais rústicos elaborados, cujo maior exemplo é seu álbum +Blue, quanto com compassos eletrônicos fixos, bastante utilizados no disco Still Life Donuts, Muramatsu apresenta poucos preconceitos e um grande gosto pela experimentação. Provavelmente por conta disso, na segunda metade da década passada o artista se enveredou por um campo ainda inexplorado em seus mais de 30 anos de estrada: composições para séries animadas.

Bem, em um texto que contém jazz e anime, muitos esperam que o nome Yoko Kanno também esteja presente. Esse não é um raciocínio recriminável, pois o esforço conjunto por ela coordenado no clássico Cowboy Bebop, e mais recentemente em Sakamichi no Apollon, tornou-a, com méritos, porta-voz dessa combinação. Contudo, tal mistura está longe de ser incomum; o que pode ser observado no trabalho de Makoto Yoshimori – sobretudo em Baccano! – e, muito antes disso, nas composições de Yuji Ohnoe Takeo Yamashita ao longo da fundamental franquia Lupin III. No âmbito das animações, Muramatsu Ken nada mais é que um elo dessa corrente.

Seu primeiro trabalho no meio foi Sketchbook ~full color’s~, uma ocasionalmente engraçada adaptação de um 4-koma lançada em outubro de 2007.  Almejando ser bem-humorada, não necessariamente cômica, essa serie é satisfatória enquanto comédia de situação, onde um emaranhado de personagens vivencia momentaneamente um trecho cotidiano que tão logo é esquecido. Contando com longos planos onde há pouco ou nenhum dialogo, o trabalho musical do anime acaba por carregar sobre as costas o peso de dar-lhe o tom adequado, fazendo com que os arredores expressem o que, vez ou outra, as palavras sequer tentam passar. A par de suas funções, o compositor executa-as de modo exemplar.

Obviamente a trilha sonora – a que, por comodidade, atribuirei o termo OST, que deriva de Original Soundtrack, em alguns pontos do texto – tem como espinha dorsal harmonias tocadas ao pianos, impelindo a tranquilidade que a série pede. Isso é clamado logo na 1ª faixa do álbum lançado com a OST completa, Toomawari Shite Kaero  – musica que, contrariando o padrão desses discos, está disposta antes mesmo da abertura do anime.

Este é o escopo do trabalho feito pelo jazzista em Sketchbook. Mixando a sonoridade de instrumentos de corda à suaves levadas eletroacústicas, um álbum que totaliza 25 belas faixas foi entregue. Nelo encontramos peças como a melancolicamente linda Yuuyake wo Aruita ne, que demonstra o classicismo ainda presente no trabalho do compositor; e outras como as animadas Harukaze no Okurimono e Speed 2, sondadas pelo inconfundível toque jazzy. Em um trabalho tão eclético e irreverente quanto suas Ochoushimonono Uta ou Akichi no Sora ~Neko tachi no Jiyuu, o compositor adentrou o mundo da animação em grande estilo.

Mostrando segurança ao harmonizar som e animação, o diretor Hiraike Yoshimasa – responsável também pelo levemente similar, porém muitíssimo superior Working!! –, ao lado de uma equipe competente, apresenta uma serie que pode afastar uns e outros, seja por seu character design caricato ou por sua progressão pouco focada, mas que revela ser fácil de assistir e musicalmente deliciosa.

 A primeira experiência parece ter sido agradável, tanto que, no ano seguinte, Muramatsu retornou e esculpiu seu melhor e mais sensível trabalho no meio da animação e, decerto, um dos mais completos de toda a sua carreira na forma da OST de Kure-nai.

Produzido pelo confiabilíssimo Brains Base, Kure-nai é um anime que diverge por completo da light novel que o originou e de sua adaptação para mangá nas páginas da Jump SQ . Removendo muitas das convenções abobadas e demais entraves que permeiam essas duas outras versões, a animação visa construir um drama mais tocante e menos fantasioso, correndo o risco de tornar-se forçada e pretensiosa aos olhos do espectador. Catástrofe esta evitada em grande parte pelo excepcional plano musical, impecável em criar o turbilhão de emoções exigido.

Dividida em dois álbuns, com um total de 40 faixas, a trilha sonora de Kure-nai é um dos mais precisos expoentes do jazzno mundo dos animes.  Todavia, essa divisão não ocorreu atoa; cada lado contém  uma pegadas diferenciada, porém complementar, que fecha o dramático e ainda alegre ciclo da série.

O primeiro lado é o emocional, sustentado quase que exclusivamente por piano e violino, cuja função é esmorecer o ceticismo do espectador – tornando apto a aceitar o drama batido, mas ainda comovente que está por vir. Com performances magistrais ao piano, Muramatsu nos joga joias como Futatsu no Kokoroe Dareka ga Kimi wo Matteiru ~ Yuugure noMachi de ; e, com os devidos acompanhamentos, desenrola ainda as chamativas Mugen no Umi wo Iku e Ie ni Kaerou.

Já o segundo disco, sem diminuir o que acabo de escrever sobre seu antecessor, é a parte enxuta desse tesouro.  A estrutura da maioria das composições foi pensada de modo a acolher apenas três instrumentos em suas performances: piano, bateria e baixo – em clara tentativa de reproduzir algo similar aos trios liderados por pianistas como McCoy Tyner e Tommy Flanagan. O jazz está presente em cada faixa, com seus arranjos complexos, viradas arrasadoras e longos repousos de marcação e término, como pode ser constatado na relaxante Wataridori no Mezasu Tokoro, ou na compassada Nigerarenai Mono ~ Jaki.

 
Sim, o jazz está presente, mas não sozinho. Ao longo dessas vinte musicas, Muramatsu referenciou muitos gêneros de seu agrado, dentre os quais se destacam – para arrepio daqueles que desdenham o próprio patrimônio, pouco sabendo sobre a influência que este tem na história da musica – o samba e a bossa-nova, como evidenciado já na 5º faixa, que recebe o nome Livremente – Omoidoori ni, escrito em bom e claro português. Esse ponto é resgatado posteriormente em timing! -Shiawase no Timing, que usa ostensivamente de pandeiro em sua fantástica conjuntura.

A mistura, como elemento fundamental do jazz, está mais que representada nesse amontoado de pequenas obras-primas, passando pelo simples e comovente exemplar de enka que é Niwa no Tsubakie até mesmo pelo caos ordenado de Mori ni Hisomu Mono.

Frente a um trabalho desconcertante, tudo o que resta tecer a Kure-nai, em termos musicais, são meus vigorosos aplausos.

Mantendo um ritmo até então anual, o japa voltou a compor em 2009, desta vez para mais um lastimável trabalho do estúdio Zexcs: Umi Monogatari ~Anata ga Ite Kureta Koto~. Há pouco o que se dizer sobre esse mahou shoujo açucarado; trata-se de um anime medíocre, que visa apenas narrar uma história de amizade de modo preguiçoso. No entanto, a despeito da qualidade do roteiro, sua OST, que comporta 50 musicas divididas em dois álbuns, é excelente.

Aqui o artista mostra um lado mais contido e intimista, marcado por compassos tradicionais e primordialmente acústicos. É uma mudança sensível e agradável. A trilha sonora de Umi Monogatari é bela e suave, como a serie tenta ser.

 Harmonias imersivas como a de Yoake no Umi – Hajimari no Aka marcam toda a relaxante produção, que em dados pontos, vide Eikyuu no Nagisa ~a dream in beach~ – Kagayaku Egao, torna-se mais agitada, e em outros, como em Requiemno.2 –  Sedna no Theme : Kehai , depressiva. Há ainda as que pairam no intermediário, como a tristonha Teidanuhikyari’ Shima Uta e a viciante Sweet’n Hour – Suki ni Naru.

Umi Monogatari ~Anata ga Ite Kureta Koto~é uma animação desleixada e repleta de falhas, contudo, pouco deixa a desejar na parte pela qual o pianista responde.

O compositor quebrou sua regularidade anual e passou três anos sem dar notícias, porém, em 2012, ano de seu quinquagésimo aniversário, Muramatsu Ken inverteu os papeis e presenteou seus fãs participando de um projeto que, enfim, aliou sua arte a um roteiro de igual desenvoltura: Natsuyuki Rendezvous.

Trazido ao ar pelo conceituado bloco noitaminA, essa animação remonta às origens do segmento da TV Fuji, adaptando um mangá josei de Haruka Kawachi. Sob uma ótica menos idealista, a série é feliz ao tratar dos percalços dos relacionamentos amorosos, que não raro assumem um caráter obsessivo-possessivo. Lançando mão de alegorias de contos de fadas (histórias aparentemente inocentes, mas que no mais das vezes escondem mensagens obscuras), o anime não tem medo de explorar o mais egoísta e compulsivo lado de seu trio de protagonistas, mesmo que, para isso, precise sacrificar a notoriedade de um ou outro deles em momentos oportunos – fato que acalorou os ânimos de parte da audiência. Sensível e audaz, esse drama, não muito romântico e ainda menos engraçado, ousa indagar que “o protagonista tem que ter um final feliz. Mas, afinal, quem é o protagonista?”. Em resposta, digo que a protagonista dessa produção, que tenho como uma das mais competentes do ano, é, sem dúvida alguma, a estupenda trilha sonora creditada a Muramatsu Ken.

Aqui o compositor se entrega ao teclado eletrônico, mergulhando nos arranjos jazzísticos com pegada modernista de Let’s kiss! e Yousei no Shoutai, por exemplo. Ao longo das 35 faixas do CD, o músico explora ainda sonoridades mais vanguardistas, como a agradável mistura de piano e koto de Natsukashii Senaka, e as mais tradicionais performances de seu instrumento de origem, como em Kimi wa Waratteite ~Setsunai Jikan~, carro chefe da animação. 


Abarcando a magia das jam sessions em Improvisation no.11, em que, como o título sugere, diversos instrumentos flutuam livremente, sem nenhum fio condutor, e em Silent crow, na qual um baixista desconhecido envolve o pianista num elegante dueto, a trilha sonora de Natsuyuki Rendezvous traduz musicalmente a mais marcante característica da animação: expressividade.

E assim, enquanto aguardo novos trabalhos para futuras atualizações, concluo este rasteiro apontamento sobre a obra de Muramatsu Ken no ramo na animação. Obra esta que deve ser difundida.

P.S: Uma imagem vale por mil palavras, já uma música dispensa-as por completo. Este é um texto repleto de links e vídeos relacionados ao assunto abordado, e ouvir suas musicas é essencial para a completa assimilação. Aliás, caso vocês realmente ouçam as músicas, que é meu maior desejo, a própria leitura torna-se inteiramente dispensável.
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3 comentários em “Muramatsu Ken: o jazz japonês e seu reflexo na industria dos animes

  1. Ore no scan disse:

    Texto excelente, musica excelente, não tem muito o que dizer. Não conhecia o excelente artista Muramatsu Ken de nome, mas já tinha ouvido seu trabalho. Apesar de não convencer, Umi Monogatari ficou marcado por sua trilha sonora.

    Agora que eu já sei o que procurar, com licença.

  2. Eruru disse:

    Autor, obrigado pelo excelente review. Cai de paraquedas no blog e me deparo com essa jóia de artigo; e o assunto abordado que me interessou muito!

    Parabéns!

  3. Eruru disse:

    Mano, impressionante o texto. Mais espantoso é imaginar que pra escrever algo assim a pessoa sempre sabe muito mais.

    Não conhecia o Muramatsu Ken e gostei muito. Vou conferir os animes citados apenas pela música. Obrigado!

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