Interstella 5555: The 5tory of the 5ecret 5tar 5ystem: marco na animação, marco musical

 
Uma fantasia que poderia ser fruto da mente imaginativa de uma criança qualquer, que, ao criar todo um universo onde seus brinquedos protagonizem a mais fascinante epopeia, não se preocupa com pormenores críticos, “coisas de adulto”, como explicações e conceitos prosaicos ou ações realísticas. À luz da cena final de Interstella 5555: The 5tory of the 5ecret 5tar 5ystem, na qual, anestesiados pela incrível hora que a precedeu, descobrimos que tudo que se passou pode ter sido apenas um devaneio juvenil, fica evidente a intenção por trás desse inusitado projeto, que reuniu uma das mais criativas equipes que o mundo da animação já viu. A tal ideia? Fazer uma homenagem a tempos mais simples, joviais – aqueles em que formamos nossas bases referenciais. O resultado? Êxito incontestável.

Vejam bem, precisamos fazer um pequeno desvio antes de tratar o que foi originalmente proposto. Provavelmente alongar-me-ei sem necessidade. Paciência.

Viajemos pelo tempo-espaço. O cenário é a França oitentista. Tendo em mente que o mercado francês é um dos que mais consome cultura japonesa no mundo, com enorme tradição na importação de quadrinhos e produtos audiovisuais, imaginem duas crianças que cresceram habituadas a despender suas horas com as mais clássicas aventuras já concebidas no mundo dos animes, em especial as ficções cientificas de Leiji Matsumoto, como Galaxy Express 999, Space Pirate Captain Harlock e Uchuu Senkan Yamato. Somem a essa imagem o fato de que as mesmas crianças – que, é importante frisar, vêm de famílias ligadas à indústria fonográfica e, a bem da verdade, são músicos desde sempre – vivenciaram o advento conceitual da música eletrônica, chefiado pelos alemães do Kraftwerk, que em dado momento beirava o delírio futurista. Visualizem de  Bee Gees New Order; eis a infância; as raízes.

Avancemos um pouco e flagremos essa dupla, agora na adolescência, em boates parisienses, às voltas com uma tal de house music, estranho gênero de batida 4/4 surgido anos antes em Chicago, EUA. Observem o desenvolvimento desses pivetes em uma cena tão rica quanto a da música eletrônica europeia em seus tempos áureos. Súbito, presenciem o exato momento em que eles deixam de integrar as pistas de dança e passam a comandá-las. Por fim, concebam que, já adultos, após uma frustrada investida no mundo do rock, esses “punks bobos” – daft punks, como diria uma crítica da lendária Melody Maker ao seu primeiro projeto, a banda Darlin’; critica esta que viria a nomear uma dos mais importantes grupos de nossos tempos –, decidam voltar às raízes, mesclar os estilos que ouviam e as fantasias que nutriam na infância, adotando a identidade de humanoides-robóticos-interplanetários para, ao lado de artistas então
emergentes como The Chemical BrothersThe Prodigy, Moby e Fatboy Slim, botar a música eletrônica de volta nos eixos.

Pegaram tudo? Pois bem, agora já sabem o que precisam saber sobre Thomas Bangalter e Guy-Manuel de Homem-Christo, que formam o duo Daft Punk, protagonista deste texto.

Após o lançamento do aclamado Homework, de 1997, o Daft Punk tinha que provar em seu segundo registro, como também fizera bandas tão diferentes como The Clash e The Smashing Pumpkins, que não esvaíra todo o seu repertório já no álbum de estreia. Mas como ultrapassar um CD que promove a ressurreição da era disco em faixas como Around the World, ou envolve o ouvinte com a dançante psicodelia com pegada funk de Burnin? Para ser solucionada, tal questão requeria um achado, uma verdadeira descoberta – e apenas o oportuno Discovery, lançado 13 de março de 2001, poderia surgir daí.

A fim de não cair na armadilha da “revolução obrigatória” (quando o artista se vê constantemente pressionado a lançar mão “de algo que se aproxime de uma obra-prima, por volta da meia-noite”, como disse Dexter Gordon), a dupla optou por uma vertente conceitual, que remontasse às influências primárias de sua carreira. Foi durante as sessões de iniciais de gravação, ainda com pouquíssimas faixas em produção, que os músicos tiveram a ousada ideia de criar, como parte orgânica e essencial do disco, como sua transcrição visual, uma animação que reunisse a ficção científica dos animes clássicos que tanto apreciaram na infância e a sonoridade do novo século. Em 2000, junto ao amigo e colaborador Cédric Hervet, Bangalter e Homem-Christo, na posse do álbum já completo e de um roteiro simplista e nostálgico, rumaram para Tóquio com um objetivo: cativar Leiji Matsumoto, ídolo do time, a comandar o projeto do primeiro musical animado de eloctromusic do qual se tem notícia.
 
Matsumoto aceitou supervisionar e dirigir alguns segmentos, Kazuhisa Takenouchi foi contratado para a direção geral, e assim começou o processo de mais de três anos, que perdurou de 2000 a 2003, do qual emergiria Interstella 5555: The 5tory of the 5ecret 5tar 5ystem. Os primeiros episódios dessa produção da Toei Animation, que se divide em 14 partes que encontram par no disco Discovery, foram lançados no formato videoclipe (como todos os demais viriam a ser) e exibidos mundo afora pela MTV e pelo Cartoon Network (aqui no Brasil, pela saudosa Fox Kids) junto ao lançamento do álbum, em 2001. Entretanto, o produto final, um longa de 67 minutos, seria entregue apenas em 1 de dezembro de 2003.

Aí está o contexto. Mas do que trata o enredo, afinal? De imediato, pode-se dizer que narra uma jornada que abarca o sequestro, o resgate e o retorno ao lar de um quarteto musical extraterreno. Sim, só isso. O cerne da história contada é extremamente simplista, ao passo que o modo como a contam, e as mensagens que transmitem através dela, são sofisticados. E, no frigir dos ovos, os dois últimos suprem, e até mesmo suplantam o primeiro.

O como é a questão mais premente. Interstella 5555 é descrito como um musical animado, porém, divergindo dos incontávei filmes do Walt Disney Studios cunhados da mesma forma, a música não exerce nele um papel secundário, dividindo espaço com diálogos e efeitos sonoros. The 5tory of the 5ecret 5tar 5ystem é, em verdade, a interface visual de Discovery – portanto, a música é tudo. Sem falas, e com inserções sonoras minimalistas, que se restringem a pontuais sons de derrapada, explosões ou da chuva caindo sobre a cidade silenciosa, o longa proporciona uma experiência cinematográfica única, em que uma batida diz mais que mil palavras. E o vasto repertório referencial dos artistas (que pode ser visto nesse ótimo apanhado de samples usados na estruturação do álbum) permite com que declamem o equivalente a discursos socráticos.

O papel da música é vital, e as faixas que integram a trilha sonora são responsáveis por dar cada um dos tons da animação. Momentos de frenesi, alegria ou tristeza precisam ser endossados pelo que se ouve ao fundo, e as louváveis habilidades demonstradas por Takenouchi e Matsumoto ao prescrever visualmente ponto a ponto dos experimentos harmônicos da dupla francesa resultaram em perfeita comunhão entre áudio e vídeo. Quer observemos o abrupto e esquizofrênico solo de guitarra de Aerodynamic, que vemos no anime em meio à confusão de uma eletrizante cena de perseguição e captura, quer estudemos a melodia da mais bela composição do disco, Something About Us, que, não à toa, dá forma ao ápice dramático do enredo, é perceptível o êxito da equipe e fazer com que duas mídias comuniquem-se em uníssono com o espectador.

A obra foi planejada de tal modo que até mesmo os títulos dos segmentos interagissem com a animação, disseminando conceitos importantes ou apenas fazendo referências. Na já clássica Harder, Better, Faster, Stronger – que inspirou o rapper Kanye West na também excelente Stronger –, por exemplo, se esconde uma crítica do duo à indústria fonográfica, que fabrica artistas a bel-prazer, os padronizando, sugando e por fim descartando. Essa ideia é recuperada quando o objetivo do vilão da trama é revelado, durante o clipe de Veridis Quo, que oculta também uma pequena brincadeira: a pronúncia em inglês do título se assemelha a very disco (em alusão ao gênero musical que tanto os inspirou), e, caso invertido, o nome pode ser lido como discovery, descoberta.

 Interpolações bem-humoradas como a acima descrita se perpetuam de maneiras distintas pela animação: em Crescendolls, descobrimos que o título da canção é ainda o nome terráqueo dado ao grupo raptado; em High Life, vemos uma rápida, porém divertida aparição do próprio Daft Punk; e a sequência final do filme, embalada por uma música com os vocais do norte-americano Romanthony – também presente em One More Time, canção conhecida de cor e salteado por qualquer um que tenha vivido a primeira década do século –, é sarcasticamente intitulada Too Long, por contar com nada menos que 10 minutos.
 
Aparição da dupla no clipe de High Life
Bem, discorrer aqui sobre os meticulosos cenários do filme, que vão da mais colorida nebulosa a cinzentos subúrbios pós-industriais, ou sobre o demasiadamente clichê, mas eficazes método construção do roteiro, que se divide em três atos facilmente distinguíveis, me deixaria bastante satisfeito. Mas não o farei, pois esses são fatores que não devem ser descritos, e sim visualizados por cada espectador sob sua ótica particular. Então, encaminho este escrito para o derradeiro parágrafo. Se ele agregou apenas cansaço a suas vidas, uma vez mais, paciência.

Como descritos numa das raras entrevistas do Daft Punk, Interstella 5555: The 5tory of the 5ecret 5tar 5ystem e Discovery são experiências irmãs “sobre o passado, o futuro e, talvez, sobre o presente”. As três grandezas são constantes que mudam de segundo a segundo, de pessoa para pessoa –  assim também é esse projeto, um dos mais autorais e bem resolvidos marcos da animação no século XXI. E, uma vez que todos os segmentos que compõem o filme podem ser assistidos em alta definição no youtube, via o canal VEVO, 100% legalmente, recomendo que, sem perder mais nenhum segundo, cada pessoa o faça.


One More Time:
Aerodynamic:
Digital Love:
Harder, Better, Faster, Stronger:
Crescendolls:
Nightvision:
Superheroes:
High Life:
Something About Us:
Voyager:
Veridis Quo:
Short Circuit:
Face to Face:

Too Long: 

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