O hip hop e o Japão como berço da produção alternativa contemporânea

“A formação e a firmação das cidades ‘grandes’ (metrópoles), enquanto habitat de grupos sociais trouxe inúmeros problemas inerentes às novas formas de sociabilidades. Entre eles a fragmentação dos grupos, convencionado a partir de 1970 de ‘tribos urbanas’, cujos indivíduos constantemente passam por uma crise de identidade.” (MAFESSOLI, 2006).

Mesmo invocando mal-entendidos, o empenho de crise de identidade na citação acima se refere não a um abandono espontâneo do individualismo em função da atuação nas tais tribos urbanas – embora esta seja uma possibilidade, como mostra o obrigatório A Onda, filme alemão de 2008 realizado por Dennis Gansel –, e sim à padronização exigida pelos aglomerados populacionais que são as metrópoles, um oceano de indivíduos que, reprimidos pelo constante frenesi e acirrada competição pela sobrevivência, acabam por abrir mão de ideologias, manifestações artísticas e demais “adornos” pouco relevantes a um produtor-consumidor padrão. Neste cenário, as tribos urbanas surgem como meio de resposta à sociedade pós-moderna. Reunindo indivíduos com gostos e valores semelhantes, e também aqueles desprovidos de ideais próprios que encontram no grupo o que lhes falta, nascem essas tribos. Complementado pelas características vestimenta, linguajar e criação de um eventual código de conduta, movimentos artístico-sociais com base nas tribos proliferam-se pelos centros urbanos, sendo o hip hop um dos, senão o mais politizado, debatido e vívido dos exemplos.

“O Hip Hop é um movimento de cultura juvenil que surgiu nos Estados Unidos, nos últimos anos da década de 1970, unindo práticas culturais dos jovens negros e latino-americanos nos guetos e ruas dos grandes centros urbanos. O movimento é constituído pela linguagem artística da música (RAP-Rhythm and Poetry, e DJing,  pelos rappers e DJ´s), da dança (o break) e da arte plástica (o graffiti)” (Rose, 1994).

Vociferando contra a segregação e violência policial, o hip hop é concebido e rapidamente se espalha por Nova Iorque, Chicago, Los Angeles e outras grandes cidades dos EUA, como instrumento de protesto da perseguida população periférica. Contando com porta-vozes da acidez e criatividade de Grandmaster Flash, Public Enemy e Run D.M.C, o movimento viveu os tempos áureos de sua vertente mais social do final dos anos 1970 até a metade da década seguinte, que corresponde ao que hoje chamamos de período clássicos, a Era de Ouro do hip hop . A partir daí, subgêneros dos mais variados, dentre os quais se destacou o Gangsta Rap, abafaram as vozes dos precursores do movimento.

Nos anos seguintes, uma mentalidade menos consciente, com certa glorificação do crime já há muito semeada por grupos como N.W.A (que ainda mantinha um caráter bastante crítico, e do qual saíram três nomes lendários do Rap: EazyE, Dr. Dre e Ice Cube), tomou conta do cenário e caiu nas graças de um público elitizado, fora dos guetos, incrementando vendas, investimento e produção. A primeira metade dos anos 1990 consiste no período mais frenético, e, segundo muitos, também mais criativo da história do hip hop; a ascensão de titãs como o grupo Wu-Tang Clan, as duplas Gang Starr e Mobb Deep e dos talentos solo Jay-Z, Big L e dos insuperáveis Nas, The Notorious B.I.G e Tupac Shakur, que não raro alcançavam vendagem que acarretavam discos de ouro e platina, demonstram a maior expressividade do período. No entanto, uma mudança de paradigma tão brusca culminou no irracional embate de egos que foi a disputa entre artistas da Costa Oeste e da Costa Leste, que, devido a um sensacionalismo midiático próximo ao criminoso, encerrou prematuramente a carreira e a vida de alguns dos maiores rappers da História – ocorrido que, para uma parcela mais pessimista, levou consigo o verdadeiro hip hop.

Ainda que eu discorde dos extremistas  como ficará evidente no restante do texto, enquanto verdadeiro fã de música – de qualquer período ou estilo – e, inerentemente, fã de hip hop, ou melhor, do bom hip hop, devo com eles concordar em uma verdade inexorável: o cenário estadunidense encontra-se em flagelos!

Nunca se ouviu tanto Rap e aquilo que muitos imbecis, relevando totalmente a origem do termo e tudo o que ele representa para a música norte-americana, ousam chamar de R&B (salvo exceções, como o promissor Frank Ocean, que marcou o ano de 2012 com o excelente channel;ORANGE, trabalho autoral como há muito não se via nesse meio) como nos dias atuais. Um passeio pelas rádios americanas evidencia que o movimento outrora subversivo com forte apelo à luta por direitos civis práticos, hoje nada mais é que um meio de autoafirmação para adolescentes que utilizam de seus maneirismos para exalar sua promiscuidade, através de pseudo-conquistadores e bandidos fabricados. Embora artistas virtuosos como Eminem e Kanye West ainda surjam de tempos em tempos, estes não tardam a cair em repetição, que, somada às eventuais letras tolas de espírito insosso, levam à mesma desgraça aparentemente intransponível que tragou Snoop Dogg. Salvo raras exceções como o espetacular grupo The Roots, que há duas décadas traz o que há de melhor em questão de letras e bases rítmicas, o mainstream mostra-se patético, nem uma sombra do que já fora. E essa realidade dá força a uma afirmação que poderá ser encontrada nos comentários de praticamente todos os vídeos usados a partir daqui para embasar a postagem, sendo também meu principal argumento contra os citados pessimistas: “O hip hop não morreu, vive hoje no underground!”.

O underground, alternativo, sempre foi o refúgio daqueles que discordam das diretrizes massivas de um gênero ou movimento, ou ainda dos que não obtêm êxito em alcançar as massas. Durante o advento do Gangsta Rap, por exemplo, alguns poucos, como o espirituoso quarteto The Pharcyde, deram sequência à retratação de um cotidiano sofrido e injusto. É o nadar contra a corrente; fazer por si mesmo. Um comparativo regional é o sucesso do proeminente Emicida, que, apesar de não cair no meu gosto, é um exemplo inquestionável de sucesso e perseverança, tendo de forma totalmente independente alcançado um status quase impensável em nosso país, comparável somente ao da autoridade edificada do Rap nacional, o Racionais Mc’s.

O meio alternativo é onde hoje se encontram os verdadeiros talentos do hip hop norte-americanos, e, arrisco dizer, mundial. E estes novos artistas retêm uma característica vantajosa, impensável aos seus antecessores, que acresce à produção artística: troca instantânea de informações e composições, que podem ser gravadas e lançadas por qualquer um de modo prático e acessível. O mundo conectado tornou possível o maior alcance de músicos que, ao contrário das estrelas multimilionárias, tem algo a dizer, como o fenomenal Move.Meant ou o indescritível projeto francês Jazz Liberatorz –  que, pessoalmente, considero o melhor grupo em atividade. Mais do que isso, mesmo a formação de uma “comunidade” internacional de músicos que colaboram uns com os outros em esforço constante tornou-se possível, a exemplo de uma corrente que surgiu nesses moldes, tendo como epicentro o Japão.

 Quando falamos de hip hop no Japão, tratamos um movimento forte, que desencadeou diversas subculturas e estilísticas, acompanhando a produção americana por um período e, não muito depois, seguindo seus próprios rumos e integrando características à música Pop regional. O J-hip hop é importantíssimo à cultura pop nipônica, porém, sempre ostentou um caráter mais visual, relacionado à atitude e vestimenta, que musical. Voltando ao início do texto, a repressão subconsciente exercida pelas metrópoles é vista como desencadeador do processo de formação das tribos urbanas; se o Ocidente foi fortemente afligido por essa consequência histórico-social, é fácil imaginar o impacto causado na controladora sociedade japonesa. Infelizmente, divergindo da bela produção urbana do grafite e das artes-plásticas, a música em si era vista apenas como um ritmo dançante, interpretada por grupos medíocres como Dragon Ash, RIP SLYME e TERIYAKI BOYZ que, flertado com o estilo americano, mas sem seu cunho social, pouco ou nada tinham de inédito. Entretanto, o caráter artístico do hip hop japonês é tão real quanto é o do atual estadunidense, porém, da mesma forma, este subsiste no meio alternativo. E existe um nome responsável por sublinhá-lo: Jun Seba, mas conhecido pelo acrônimo Nujabes.

 Nujabes nasceu em 7 de Fevereiro de 1974, e, antes de compositor, DJ e produtor de talento inestimável, era um grande fã de música, sobretudo de jazz, e, é claro, hip hop. Seu amplo conhecimento refletiu-se em sua técnica: tocante e introspectiva, que o levou a compor bases que variam dos mais limpos arranjos de piano aos mais elaborados samples, do hard bop ao samba. Hoje visto como O grande nome do hip hop japonês por seus conhecedores mais profundos, Jun foi o elo primário da anteriormente citada corrente de artistas que movimentou o mercado com alguns dos melhores álbuns já lançados na vertente, deste ou do outro lado do oceano.

O DJ e produtor fundou em 2003 o selo independente Hydeout Productions, tendo como objetivo divulgar e produzir os verdadeiros talentos do hip hop de sua terra. Espelhado nele e em seus apoiadores e grandes amigos, tal qual Uyama Hiroto – a meu ver, um produtor e compositor ainda mais talentoso que o próprio Jun, mesmo que a importância de suas atuações sequer se compare –, Jemapur, Kenmochi Hidefumi, e mesmo em artistas fora de seu circulo de amizade, mas impelidos do mesmo sentimento, como Dj Okawari e Nomak, essa agora formada corrente prescreveu com exatidão musical o pranto de renovação que ecoava agora em alto-falantes e fones de ouvido privilegiados. Colaborando com muitos artistas, como os grupos norte-americanos CYNE – que originou uma parceria ainda mais vindoura com seu porta-voz, Cise Starr – e Five Deez – cujo  membro Pase Rock teve o álbum solo Bullshit as Usual produzido por Nujabes –, o rapper nova-iorquino CL Smooth, o britânico Funky DL, ou ainda seu conterrâneo Shing02, Nujabes aprimorou-se por meio da troca de experiências, acumulando renome. E, tendo também como proposito a divulgação, a Hydeout Productions se dispôs a lançar álbuns compilatórios, reunindo artistas que inspiraram o surgimento desta corrente, nos quais se encontravam desde o preciosíssimo trio canadense Specifics, composto pelo MC GoldenBoy, o  DJ Goser e seu formador e produtor ThinkTwice, até a estupenda banda de jazz SleepWalker.

Durante os últimos anos, esses e outros artistas vêm apresentaram trabalhos inspirados por esta vertente mais instrumental e intimista do hip hop originada no Japão. No entanto, não fosse pela ação de um produto de dimensões globais que os disseminou, esses trabalhos teriam permanecido na obscuridade de nichos tão específicos, fechados, que mesmo esta postagem não existiria. O produto em questão provém da mente do genial diretor/roteirista Shinishiro Watanabe, na forma daquela que, de certo e cada vez mais, é minha animação predileta: Samurai Champloo, do saudoso ano de 2004.

Brincando com os anacronismos que surgem ao se misturar elementos da cultura hip hop ao Japão do Período Edo, emerge um anime tão rico em sua trama, subtexto e personagem que é para mim ofensivo tentar retratá-lo de forma simplória – tanto que não o farei. Levado a uma vastidão de países ao redor do globo, inclusive ao Brasil (tendo, aliás, sido inteiramente exibido na TV aberta pelo finado bloco Otacraze da também finada Play TV), Samurai Champloo espalhou a cultura hip hop não só por referencia-la em seu texto, mas também, e,  principalmente, por sua trilha sonora assombrosa, resultado de um esforço conjunto de Fat Jon DJ do já citado Five Deez –, Tsutchie, Force Of Naturee encabeçado por ninguém menos que Nujabes. Vital também foi a colaboração de diversos outros nomes, tal qual Shing02 – que canta a já lendária abertura da série, Battlecry –, a artista Pop MINMI – interprete da igualmente icônica Shiki no Uta –, o cantor Azuma Riki – cuja canção encerra o mais lembrado e hilariante dos episódios –, e o grupo Midicronica – que com belíssima San Francisco fecha com chave de ouro uma produção impecável. Totalizando mais de 80 faixas divididas em quatro álbuns, quatro obras-primas, a trilha sonora de Samurai Champloo, arriscado projeto de um diretor sempre movido por seu tato musical, acabou por divulgar o que estava sendo feito, impulsionando os idealizadores e trazendo novos talentos à tona.

 Fatalmente, em 26 de Fevereiro de 2010, Jun Seba faleceu prematuramente em um acidente de carro, somando apenas 36 anos. Sua morte abalou a corrente por ele fundada, diluindo a produção e atuação da mesma. Porém, pouco depois, esta provou não estar morta ao lançar Modal Soul Classics II, dando sequência ao projeto de compilação iniciado por Nujabes anos antes, sendo este álbum uma tocante homenagem ao artista. O CD reune amigos, colaboradores e admiradores, como Uyama HirotoPase Rock, Calm, Specifics, Emancipator, Zack Austin e mesmo a reclusa Haruka Nakamura – a qual eu adoro, mas, como todos os seus fãs aqui do Ocidente, pouco conheço devido à dificuldade em encontrar material disponível na internet –, e outros nomes que o influenciaram e foram por ele influenciados. A comoção na rede foi também notável, e, devido à divulgação viral daqueles que já o acompanhavam, é seguro dizer que, irônica e tragicamente, Nujabes tornou-se mais conhecido após o falecimento. Homenagens similares pipocaram por todo o mundo, resultando em belos trabalhos como a dupla Tribute to Jun Vol. 1 e 2, que juntou artistas iniciantes numa bonita prestação de respeito.

A lembrança voltou a crepitou vorazmente  nos últimos dias do ano passado, quando o álbum póstumo Spiritual State, assegurado como último trabalho a levar o nome de Jun Seba, foi lançado. Trata-se de um disco finalizado pelos envolvidos em faixas não concluídas pelo artista, fragmentos que, agora completos, são capazes de levar seus fãs às lágrimas:

 Desde a morte de seu precursor, o futuro dessa corrente inominada é incerto.  E, embora haja o risco real de descontinuidade – mas, felizmente, novos nomes como  re:plusDela Incise apontem na direção contrária –, há também a certeza de que os trabalhos a ela acometidos nos últimos anos contêm algumas das mais belas faixas da história do hip hop.  Musicas que viverão para sempre.

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Um comentário em “O hip hop e o Japão como berço da produção alternativa contemporânea

  1. Texto impressionante pela abordagem concomitantemente ampla e densa, na qual facilmente conseguimos identificar o cuidado de um verdadeiro apreciador. Agradeço pelas citações do texto, vejo que tenho muito o que desfrutar e conhecer do cenário hip hop mundial e japonês!

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