Sakamichi no Apollon: O sensível retrato de uma Era

 
“O diabo está nos detalhes!”  Ditado popular norte-americano
É sabido que, no pós-guerra, a influência estadunidense foi veementemente sentida no Japão. Rendido e arrasado, o governo japonês encontrou na aliança com os norte-americanos sua maior, talvez única chance de reerguer o país, tentando reaver a notoriedade de outrora no cenário internacional sem que isso gerasse uma exacerbada dívida externa. Não obstante, sua posição em uma Ásia assolada pelo comunismo era ideal, até mesmo essencial para que ali se instituísse uma “vitrine capitalista” no Oriente. Por esses, dentre outros tantos fatores, a aliança se firmou e deu abundantes frutos em um período espantosamente curto de tempo, propiciando o que conhecemos como “o milagre japonês”. Tão forte se tornou a ligação entre os dois países que a alcunha de “Grã-Bretanha da Ásia”, ou seja, região que, a despeito de seu histórico conflitante com os EUA (ainda pungente, no caso japonês), viria a ser a maior aliada norte-americana em dado continente, foi e ainda é usada à exaustão.
 
Se, em decorrência da adoção da metodologia ocidental, ocorreram tremendas reformas políticas, econômicas e sociais, o campo cultural também foi drasticamente afetado. A consolidação do estilo mangá, tal qual sua popularização, por exemplo, jamais seria possível sem a forte influência dos quadrinhos e desenhos animados norte-americanos. No que concerne à música, o efeito foi percebido até pelos estrangeiros. Em sua turnê pelo Japão (da qual falei aqui), no ano 1964, já avançados muitos estágios no processo de recuperação, o brilhante Dave Brubeck observou que “Em sua música ‘pop’, os japoneses parecem parodiar a si mesmos, (…) usando ideias ocidentais de como o Oriente deve soar”.
 
Pautado nesse abandono de características – e de valores, diriam alguns – tipicamente japoneses frente à invasão de conceitos e produtos ocidentais no pós-guerra, o infalível Shinichiro Watanabe, que já nos agraciou com uma das melhores óperas espaciais da história da animação nipônica (Macross Plus), um espetáculo de referências às produções cinematográficas e musicais de seu agrado (Cowboy Bebop), uma frenética, anacrônica e visionária jornada pelo Período Tokugawa (Samurai Champloo), e belíssimas participações em ambiciosos projetos colaborativos (The Animatrixe Genius Party), dirige, após oito anos longe de séries televisivas, sua primeira adaptação: Sakamichi no Apollon.



O roteiro, proveniente do mangá de nove volumes criado Yuki Kodama, vencedor da mais almejada categoria da 57ª edição do prêmio Shogakukan Manga Award, provou, ao longo dessa adaptação de doze episódio levada ao ar pelo bloco noitaminA, que muito pode ser dito através da mais simples das histórias. O ano é 1966. Nishimi Kaoru é um aplicado estudante que, por conta do trabalho de seu pai, muda-se com grande frequência, não conseguindo jamais fincar raízes, fazer amizades ou ficar confortável em suas moradas temporárias. Em Kyushu, ultimo destino de suas mudanças, esse solitário paradigma não se alterou. Subir diariamente uma estafante ladeira, amaldiçoando-a mentalmente; estudar sozinho; sentir-se mal, vez ou outra, com a presença de terceiros; tocar música clássica ao piano. Para Kaoru, esse entediante cotidiano é inabalável. Mas Kawabuchi Sentarou, o temido garoto problema do colégio, logo o mostra o quão inverídico é esse pensamento, apresentando-o aos três pilares da animação: o jazz, a amizade e o amor (na figura de Mukae Ristuko, amiga de longa data do valentão).

 
A alusão à invasão dos costumes ocidentais em terras japoneses se apresenta sobremaneira já nos alicerces do enredo, na figura de Sentarou, um mestiço, filho de um soldado americano com uma típica dona de casa japonesa. Não por acaso, é esse porta-voz do Ocidente quem apresenta o jazz – junto ao blues, única forma de arte vista como genuinamente norte-americana – a Kaoru, típico e comportado modelo de primogênito nipônico. Apaixonando-se pelo gênero, o protagonista passa a conhecer e admirar um panteão de grandes músicos. No entanto, também não à toa, todos os nomes referenciados são estrangeiros, ainda que, em pleno auge dos anos 1960, excelentes artistas como Hino Kikuchi, Norio Maeda, Jiro Inagaki e Miyamoto Naosuke já representassem a Terra do Sol Nascente no cenário do jazz mundial.

 

Nem mesmo uma das mais intrínsecas características de uma cultura, a religião, é poupada: Sentarou e Ristuko são católicos. E inúmeras referências a essa crença, outrora perseguida e proibida (fato que o próprio Watanabe abordou magistralmente em Samurai Champloo, anime que, inclusive, dialoga de modo interessante com Sakamichi no Apollon, trabalhando, em alguns momentos, seu oposto: a repulsa aos costumes ocidentais), como comentários do gênero “Ah, uma amiga se casou numa igreja…”, são recorrentes. Ainda hoje, apenas 0,7% dos japoneses são cristãos; essas inserções não buscam, portanto, demonstrar um irreal crescimento no número de praticantes de religiões ocidentais, e sim a casualidade, aceitação, assimilação dessas novas crenças pela milenar cultura do arquipélago.



Aliás, a casualidade com que se vive num Japão que pouco ou nada retém de típico é, diferente dos elementos preexistentes no mangá acima citados, um dos pontos que demonstram o porquê de Shinichiro Watanabe ser um nome tão cultuado: praticamente todos os cortes são sucedidos por imagens do cenário no qual se dará a próxima cena; cenário que tende a expor um ou mais dos edifícios ou construções de arquitetura europeia que compõem a absolutamente ocidentalizada cidade em que vivem os personagens.





Dos edifícios ao vestuário, a ideia de perda da personalidade japonesa é pulsante. E o resultado, obtido por meio de notável cuidado não só cenográfico, mas mesmo nos trajes dos figurantes, é que, não fosse a explicitação da localidade, Sakamichi no Apollon poderia se passar no interior dos Estados Unidos, da França, ou de qualquer outro canto do mundo ocidental. O Japão, outrora austero, é aqui retratado de modo banal, opaco.

 
Outra abordagem bastante particular é a do motor dos eventos, o jazz. Uma rápida passada de olho pela seleção de 24 músicas que integram a trilha sonora da série, a cargo da sempre brilhante Yoko Kanno (apenas cinco das músicas são realmente de sua autoria, sendo as demais versões de conhecidas composições), deixa claro que apenas standards do jazz, seus carros chefe, mais conhecidas e aclamadas faixas e artistas são aproveitados. Miles Davis, John Coltrane, Bill Evans, Chet Baker, Duke Ellington, Art Blakey e Horace Silver são alguns dos poucos nomes que figuram o fundo musical da animação. Frente a um período de produção tão caloroso quanto os anos 1950 e 1960, esse pequeno leque de instrumentistas pode, a princípio, decepcionar. Mas não é preciso muito para se compreender a intenção: acompanhar a introdução musical de protagonista. São poucos os que conhecem o rock por The Velvet Underground, por exemplo. Um produto de massa tende a marcar o primeiro contado – The Rolling Stones ou, no caso brasileiro, Legião Urbana. De modo similar, Coltrane tende a chamar mais novos entusiastas do que Pharoah Sanders. Contudo, a seleção de músicas, iniciada no mangá por Kodama e quase dobrada no anime por Watanabe e Kanno, é pensada de forma a introduzir Kaoru ao jazz, encarnando o leitor/espectador regular, que jamais teve contato com os grandes sucessos de décadas atrás, para que, talvez, e apenas talvez, uma ou duas crianças do século XXI possam realmente se interessar por esse estilo que tanto contribuiu para a História da música.
 
Quanto à qualidade das adaptações, vale repetir: Yoko Kanno, seja como compositora ou produtora,  é sempre brilhante!
 

 

Reconstruindo os clássicos, dando destaque a bateria e ao piano, respectivos instrumentos de Sentarou e Kaoru, a compositora deixou-os mais ágeis e curtos, de modo a melhor dinamiza-los para o formato televisivo, sem que isso os deformasse. Algumas faixas, como Satin Doll e Milestones, foram belissimamente reformuladas, não devendo nada em vivacidade às gravações clássica; já outras, como Four e Equinox, infelizmente, não fazem jus às ideias originais de Davis e Coltrane, respectivamente. Entretanto, tendo em conta os pontuais deslizes, faixas como Someday My Prince Will Come, But not for me e Blowin’ The Blues Away são mais que o bastante para desequilibrar a balança.
 
Em tela, os esforços de Kanno não poderiam estar entregues a mãos mais competentes: a equipe de animadores do estúdio MAPPA, em parceria com o Tezuka Productions, deu vida a memoráveis jam sessions, com movimentos fluídos e expressões faciais e corporais repletas de energia. E, novamente, o toque de ouro do diretor, acurado em mostrar ou ocultar as ações oportunas nos momentos oportunos – intercalando o tocar dos protagonistas às reações do público, como no vídeo abaixo, por exemplo –, elevam os grandes momentos de Sakamichi no Apollon de bons a espetaculares:

Não apenas nas apresentações encontramos música. Em suma, ela é referenciada a cada momento, ora sutil, ora explicitamente. Pequenas homenagens podem ser pescadas desde o pássaro de estimação de Sentarou, nomeado Sarah Vaughan, uma das mais brilhantes cantoras da história, até o trem azul que transporta personagens em mais de um momento da animação, em uma clara alusão a Blue Train, uma das obras-primas de Coltrane. As referências visuais são, sem dúvida, as mais frequentes  –  feitas, em sua maioria, no mais estonteante cenário do anime: a Mukae Jazz, loja de discos que ambienta boa parte dos eventos. É possível perder-se em suas prateleiras, deleitando-se com o esmero da equipe de produção, que transportou para as telas, com admirável precisão, capas de álbuns icônicos.




 

O conturbado cenário musical do período é também objeto de um dos mais inteligentes pontos do subtexto, em que a crise enfrentada pelo jazz frente o advento do rock’n’roll é analisada. Matsuoka Seiji é o personagem que incorpora os novos ídolos que surgiam no além-mar, dando mais valor a aparência do que ao caráter artístico da música. As franjas, roupas chamativas e letras pegajosas são uma alegoria ao modelo musical dos Beatles (citados mais de uma vez na série), banda que, no contexto de Apollon, estourara mundialmente dois anos antes, em sua histórica turnê pelos Estados Unidos no famigerado ano de 1964, dando inicio ao período de agonia do jazz, a Era pós-bop, que cairia vertiginosamente em vendas nos anos subsequentes para, por fim, ser legado aos nichos. De modo a passar despercebido aos espectadores mais desatentos, esse movimento verídico da indústria musical é abordado organicamente na animação.



E eis que se revela outro acerto de Yuki Kodama: ela não vilaniza o rock’n’roll em momento algum. Seiji, seu representante na série, pode, em primeiro momento, parecer inescrupuloso e odiável, mas não tardamos a descobrir que se trata de um cara amigável, com um objetivo nobre. O rock é, verdadeiramente, retratado como o algoz do jazz – como de fato o foi , sem que isso o diminua ou descrimine.

 
Um sem-número de outros aspectos culturais do período tem seu papel na trama. O movimento estudantil, marcado pelo forte cunho comunista – corrente que se observou em praticamente todos os países capitalista, tendo como principais expoentes os estudantes franceses e, acreditem ou não, brasileiros –, é representado por Katsuragi Junichi, um universitário traumatizado pela violência dos protestos e da repressão. A visita ao cerne da questão estudantil é, aliás, uma das melhores sacadas de Watanabe, que a retrata por meio de uma narração de Junichi, somada a imagens estáticas de aspecto envelhecido, que se assemelham a fotografias antigas, conferindo à cena um tom documental. A emancipação da mulher e o rompimento com o modelo familiar de casamento arranjado são também elementos do enredo, arquitetados na figura de Yurika Fukahori, uma jovem de família influente que foge para se casar com um homem que não tem onde cair morto.

 

Como tentei demonstrar, todos os personagens da série podem ser analisados como arquétipos que remontam a questões culturais do período abordado na obra, fazendo dela o retrato das glórias e tormentas de uma Era. Indispensável para os que buscam algo que seja feliz em unir romance, amizade e música de forma emocionante, Sakamichi no Apollon ergue-se como a melhor animação televisiva da primeira metade de 2012, sem nenhum concorrente à vista no semestre que se inicia. 
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2 comentários em “Sakamichi no Apollon: O sensível retrato de uma Era

  1. Daniel Arquimedes disse:

    Eu gostei como o anime adicionou uma pitada a mais de seriedade com o Junichi.

    Eu também escrevi sobre. Se quiser ler:
    http://www.coffeeunlocked.com/wordpress/review-sakamichi-no-apollon/

  2. […] de Watanabe, o há pouco citado Space Dandy, veio ao mundo. Já tendo escrito brevemente sobre Sakamichi no Apollon na ocasião de seu encerramento, decidi que 2014 será também o ano em que prestarei essa pequena […]

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