Hoshi no Samidare…

“Ainda me lembro daquela vez em que você me mostrou o esboço do primeiro capítulo, lá no Yodobatsu Camera Café, em Osaca, logo antes da serialização. Já se passaram cinco anos desde então, não é?! Você fez um ótimo trabalho em uma série tão longa. Vamos beber novamente qualquer hora.”

Essas nostálgicas palavras de Ogata Tei, mangaká de pouca visibilidade responsável pela ilustração que abre a postagem, se encontram numa galeria memorial de imagens que reúne homenagens e congratulações de 22 artistas a Mizukami Satoshi, um dos mais promissores autores desta geração, pela conclusão de Hoshi no Samidare: The Lucifer and Biscuit Hammer, sua mais formidável obra até o momento. A galeria em questão foi publicada junto ao encadernado do décimo e ultimo volume da série, que perdurou de 2005 a 2010, e é interessantíssima porque apresenta a visão de outros profissionais, ora contidas ora emocionais, para com uma publicação que, tenho certeza, conquistou lugar na memoria afetiva de todos os seus leitores.

Sendo franco, a última sentença do parágrafo anterior é irresponsável. Sou suspeito, reconheço. Trata-se de um de meus mangás prediletos e, mesmo que nunca tenha estado a menos de um oceano de distância de seu idealizador, ou que mal tenha se passado um ano desde que conclui a leitura, compartilho, de certo modo, o sentimento de nostalgia que permeia as poucas linhas de Ogata. Por isso gosto e volto a falar da tal galeria colaborativa, que expõe os sentimentos de diferentes leitores e criadores de mangás. É curioso, por exemplo, ver que autores de calibres tão diferentes como Ishiguro Masakazu, autor de obras horrendas como Soredemo Machi wa Mawatteiru, e Hijiri Yuki, uma incontestável autoridade em design de personagens responsável por uma das muitas adaptações para quadrinhos do icônico Space Battleship Yamato, compartilhem o apreço pela história construída por Mizukami Satoshi. Creio que o fator unificador de Hoshi no Samidare, que o permite agradar a gregos e troianos, se encontra em suas muitas facetas, propiciando tanto uma análise direta e simplista quanto um rebuscado estudo de suas minúcias. Tomo por espécie o comentário que acompanha a ilustração de Ueyama Michirou: “Ótimo trabalho, Mizukami-Sensei! Uma vez que você desenhou uma história sobre salvar o mundo, penso que série incrível se a próxima fosse sobre salvar a galáxia.”. De forma parcial, esse ilustre desconhecido afirma que, em essência, Hoshi no Samidare é um mangá sobre salvar o mundo. E sua conclusão não é equivocada – não mais que qualquer outra a que se possa chegar, pelo menos.

A premissa de salvar o mundo transmite ares heroicos, épicos. Tendo por base o heroísmo, é fácil para qualquer um que tenha lido o mangá concluir que, de fato, ele é um dos elementos motores da trama. A bem da verdade, é um ponto central, que aparece sucessivamente desde a concepção dos conceitos básicos até o título de alguns capítulos, passando por falas, pensamentos, objetivos, e, sobretudo, ações tomadas pelos personagens. Portanto, a colocação de Ueyama Michirou é, sim, fortuita. Hoshi no Samidare é uma epopeia contemporânea, um épico moderno, uma ode aos grandes heróis e, intencional ou não, um resgate a seus cenários simples, ao preto no branco, a luta do bem contra o mal que, como tem sido observado desde os tempos de Shakespeare, foi pouco a pouco deixada de lado para dar lugar à ambiguidade, aos heróis dúbios e malfeitores incertos.
Há infindáveis estudos, alguns seculares, sobre a perda parcial ou deturpação dos valores heroicos clássicos, aqueles dos mitos gregos, refletidos na produção literária (particularmente, recomendo o excelente O Estatuto do Anti-Herói: Estudo da Origem e Representação, em Análise Crítica do Satyricon, de Patrênio e Dom Quixote, de Cervantes, texto de Aldinéia Cardoso Arantes, da Universidade Estadual de Maringá, que uso como muleta para muito do que direi a seguir), mas, em parvo resumo, o movimento foi: com o passar dos séculos, os “avanços” tecnológicos, políticos,  religiosos e intelectuais moldaram um novo corpo de leitores que não mais se permitia representar pelas inumanas virtudes dos antigos protagonistas, dando origem a seres ficcionais mais antropocêntricos. A partir do que entendemos por Modernidade, um arquétipo especifico, o do anti-herói, ganhou destaque, talvez por melhor figurar o conhecido dito – presente em quase todas as civilizações conhecidas – que impele, por meio de seja lá qual for a expressão específica, que não há homem completamente bom ou mau. 

Um breve momento de reflexão é mais que o suficiente para se constatar o quão profundamente tal noção está enraizada em nossa cultura pop. O mais comentado filme do ano – em boa parte por motivos trágicos, infelizmente –, o ótimo The Dark Knight Rises representa toda a multiplicidade moral cultivada ao longo de mais de dois milênios, não apresentando nenhum personagem que seja verdadeiramente heroico, no sentido grego do termo, ainda que a magnitude e natureza dos eventos vendam essa ideia. Como salientado no longa, “Qualquer um poder ser um herói. Até mesmo um homem comum que coloca um casaco sobre os ombros de um garoto para ele perceber que o mundo não acabou”. E, abordando o mundo dos games, quando falamos dos mais notórios personagens da última geração de consoles obsoletos (a geração PS2), nomes como Kratos, de God of War, e Dante, da franquia Devil May Cry, invariavelmente virão à mente – sendo que a brutalidade (crueldade, diriam alguns) destes nos faz questionar se estamos verdadeiramente controlando os mocinhos.
Entretanto, é mera tolice afirmar que o heroísmo ficcional está extinto. De modo paradoxal, alguns dizem que o advento do anti-heroísmo moderno chegou a fortalecer os grandes bastiões dos valores clássicos. Grosso modo, os bons exemplos (humildes, generosos e altruístas), disputando com as advertências alegóricas que tem como intuito aterrorizar, tendem a ser adotados por pais e professores durante a educação da geração seguinte, e esta tende a se identificar com o glorioso eco dessas virtudes. Não por acaso, comumente se atribui o termo infantil à histórias mais maniqueístas, menos “humanamente complexas”. Em suma, esse trajeto histórico explica tanto o fato de personagens como  Darth Vader terem atingido o atual patamar de reconhecimento, como o daqueles como  Superman (em seus moldes clássicos) beirarem hoje o conhecimento geral. 

De Kataoka Jinsei e Kazuma Kondou, criadores de Deadman Wonderland

Ainda há baldes de sagas heroicas, de dimensões épicas como, digamos, salvar o mundo pelo possível sacrifício da própria vida por aí. E Hoshi no Samidare é definitivamente uma delas. No entanto, isso não se reflete de imediato na figura do protagonista, Amamiya Yuuhi, que, ao contrário, em primeiro momento é um típico anti-herói. Marcado por profundas cicatrizes emocionais, esse jovem universitário é uma pessoa insegura, desconfiada, egoísta e covarde, cuja única qualidade (que, dado seu caráter doentio, sequer pode ser assim chamada) prova ser a lealdade incondicional que, após alguns ocorridos, passa a nutrir por Asahina Samidare, o segundo pilar da trama. O fato é que ambos estão presos à seguinte sandice: são peças fundamentais numa guerra travada entre o mago Animus, que busca destruir a Terra, dispondo de doze Golens surgidos de suas mãos e de uma arma capaz de esmagar o globo, o Biscuit Hammer, e sua irmã Anima, que busca proteger o planeta, auxiliada por doze guerreiros e seus respectivos parceiros animais. Yuuhi, escolhido para ser o parceiro de Sir Noi Crezant, o Cavaleiro Lagarto, como um dos doze guerreiros, e Samidare, que encarna a Princesa, entidade que deve ser protegida a todo o custo, enfrentam essa batalha com um objetivo escuso em mente: destruir o planeta por conta própria uma vez que Animus for detido.

Se a premissa parecer louca, boba ou simplesmente idiota, ótimo, pois o objetivo terá sido atingido. A cômica – na verdade hilária, acreditem – divagação construcional de Mizukami não esconde segredo: o cerne do enredo é um embate entre bem e mal, entre uma força destruidora e uma protetora, o que se observa logo no nome das quase deidades que regem tal confronto: Animus e Anima, que, para a Psicologia Junguiana, representam a personalidade masculina no inconsciente da mulher e a personalidade feminina no inconsciente do homem, respectivamente. Ou seja, são conceitos opostos e ainda assim complementares – como o fato de serem irmãos gêmeos já evidencia. Bem e mal, literalmente.

Com efeito, o maniqueísmo dos fundadores do confronto não se propaga em seus agentes, como a obscura maquinação de Yuuhi e Samidare demonstra desde o princípio. O cenário pode ser simplista, mas os personagens que nele agem certamente não o são. Ambiguidade é um aspecto constante nas personalidades tanto dos guerreiros quanto de seus adversários, o que se vê com clareza na relação entre Akane Taiyou, o mais jovem dos protetores da Terra, e Maimakterion, o 11º Golem, protagonistas de algumas das passagens e batalhas mais instigantes da história. Mas todos esses elementos acabam, em última análise, voltando-se para Yuuhi e seu espetacular crescimento. Acompanhamos ao longo desses dez volumes o movimento programado do protagonista, o regresso sentimental (e histórico-social, inconscientemente) do arquétipo do anti-herói ao do herói. Partindo de alguém egocêntrico e mesquinho, que almeja salvar a Terra para depois destruí-la egoistamente, e culminando em alguém corajoso, que deseja conservar o planeta para nele superar seus traumas e continuar a viver, Hoshi no Samidare versa acerca de um verdadeiro resgate ao heroísmo, entretendo o público com esses bravos valores que há muito foram rotulados como datados e escapistas, mas que ainda mexem com leitores de todas as idades. Afinal, quem não admira alguém, ser ficcional ou não, como um modelo, um herói? 

Ilustração de Nightow Yasuhiro, criador de Trigun e Gungrave

Explanando tão largamente com base no modesto apontamento de Ueyama Michirou, me recordo de algumas das tantas coisas – coisas demais para se colocar no papel – que a série significa para mim. Gozado que, após ter dito tanto, não disse quase nada. Por exemplo, ao reler o eufórico e confuso cumprimento de GobboxRyuuji, outro artista (ou dupla, sinceramente não sei) que desconheço, muitos outros pontos de divagação me vieram à mente:

“Eu realmente adorei Hoshi no Samidare! As batalhas, as lagrimas, as risadas, a revolta, o crescimento dos personagens e a forma como a arte evoluiu, a forma como Yuu-Kun abriu a porta sem hesitação alguma e, acima de tudo, a forma incrível como os adultos foram retratados! (Também amei o modo como todos eles discutem as coisas). E o vilão está na elite junto a todos os grandes vilões do mundo dos mangás, não está?! A queda de Tarou e Hanako também foi absolutamente incrível! Efetivamente, eu adorei tudo! Realmente adorei tudo. Muito obrigando por um mangá tão interessante! Excelente trabalho! Estarei ansioso pelo que vier daqui em diante!”.

Sim, sim. Todas essas cenas, emoções e momentos. Mas, dentre eles é importante grifar as colocações sobre os personagens adultos e o amadurecimento, pois são artifícios necessários para se compreender outra das muitas definições a que The Lucifer and Biscuit Hammer está sujeito, a de que se trata de um mangá sobre crescimento, sobre se tornar adulto. Tal constatação encontra base sólida no mangá, que apresenta, em mais de um momento, preocupações explicitas a esse respeito, expressas por mais de um personagem. Seja no dilema de Shinonome Hangetsu, que, enquanto adulto, busca dar o exemplo aos mais novos (o que lhe custa caro), no empasse de Asahina Samidare e sua síndrome de Peter Pan, ou na confusão compartilhada por Yuuhi e Taiyou que, por falta de exemplo a seguir, se questionam constantemente sobre o tipo de homens que virão a se tornar, a preocupação com o futuro e com a função de um adulto na sociedade, tal qual a especulação sobre o que difere um verdadeiro adulto de alguém com idade avantajada são pungentes no enredo. Outro argumento embasado se encontra no fato de que uma fração significativa dos personagens – sete dos doze guerreiros, por exemplo – ser maior de idade, tendo, de tal modo, um panorama mais maduro de suas incertezas. A mensagem de crescimento deixada pelo autor é quase inegável, quer analisemos as palavras que fecham o terceiro volume do mangá, sintetizando tudo o que se passou no primeiro arco que ali se encerra (“Todas as mudanças são permanentes. Mesmo se algo similar acontecer no futuro, uma mesma coisa jamais acontecerá duas vezes.”), quer observemos a derradeira frase do décimo volume (“E, com isso, nós crescemos um pouco.”). 

Mas este é apenas um dos muitos aspectos da obra. Uma das muitas coisas que ela pode vir a ser, dependendo do leitor. Reduzi-la a qualquer uma delas, abraçando unicamente a tese heroica, a do amadurecimento ou qualquer outra, é diminui-la em sua totalidade. Sem descredito a nenhuma vertente, Hoshi no Samidare é um mangá de batalhas fenomenal, um mangá cômico que provoca gargalhadas e um mangá sobre relações humanas bastante consciencioso em suas palavras. Contudo, trata-se de um mangá, e seu intuito é divertir. É como disse Marshall McLuhan, “O meio é a mensagem!”. E basta perguntar a um de seus leitores para concluir que Mizukami Satoshi  fez uso exemplar do meio.

Pois bem, na tal galeria colaborativa, Kodama Yuuki, autor do popular Blood Lad, diz: “Após ler as histórias de Mizukami-San, levo comigo a energia de seus personagens e sempre me sinto motivado e movido por eles. Parabéns por finalizar Samidare!”; já o não tão conhecido Oishi Masaru relata: “‘Estou sempre ansiando por lugares onde possa bancar o bobo’. Essa é a impressão que tenho do Mizukami-Sensei (risos). De qualquer forma, parabéns pela ótima série!”. Os invejo por resumirem de forma tão sucinta sua admiração, pois, após ter escrito tanto, simplesmente não consigo achar forma satisfatória de concluir este texto. Portanto, já que citei tantos artistas durante as ultimas páginas, creio que encerrar com uma citação é algo apropriado. É insuficiente para contemplar Hoshi no Samidare, é claro, mas concordo  e aqui me despeço – com o comentário de Ogaki Chika: “A série realmente me emocionou e empolgou a cada mês. Biscuit Hammer estará sempre em meu coração!”.

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