Dave Brubeck Quartet – Jazz Impressions of Japan

 
Mais do que um pianista brilhante, David Warren Brubeck é também um herói de guerra que, sem discursar sobre palanques, tornou-se um dos grandes ativistas pelos direitos dos negros norte-americanos. Sua história pode ser facilmente encontrada em passeios pela internet, mas há uma parte crucial desta que poucos, como o cineasta Ken Burns em sua obra-prima “Jazz”, o maior documentário sobre o gênero já realizado, se preocupam em contar: Ao combater na Segunda Guerra Mundial, Brubeck integrou algumas das lendárias bandas que, em meio à matança desenfreada, erguiam o ânimo das tropas com o jazz comercial do período, o swing. Embora os EUA fosse ainda um país absolutamente racista, brancos, como o Brubeck, e negros norte-americanos, isolados, sem perspectiva de retorno, lutaram e fizeram música lado a lado durante aquele período. Porém, de volta à América, vencida a “xenófoba” ameaça, Brubeck descobriu que o preconceito em seu próprio país em nada havia mudado.


No auge dos anos 1940, desde as big bands até os pequenos grupos de maior sucesso eram compostos uniformemente por artistas brancos. Inaugurada décadas antes, ainda reinava a distinção entre o jazz branco, que dominava as rádios, e o jazz negro, segregado, perseguido (fato que é bem ilustrado no recente e magnífico Sakamichi no Apollon), embora evidentemente mais poderoso, complexo e visionário. Brubeck, inconformado com a hipocrisia da industria fonográfica, que excluía dos holofotes voltados ao jazz seus criadores, e da sociedade estadunidense como um todo, que permitia que se morresse ao lado de soldados negros, mas repreendia quem tentasse fazer arte junto a eles, foi um dos primeiros a romper com esse sistema. Foram inúmeros os entraves iniciais; num primeiro momento, gravadora alguma se dispunha a assinar com seu quarteto inter-racial. Entretanto, anos depois, alcançando o sucesso, a integração promovida por tal formação abriu caminho para que, enfim, os negros protagonizassem o cenário musical de um estilo por eles desenvolvido mais de meio século antes.



O mais conhecido dos grupos liderados por Brubeck, que ficou conhecido como seu quarteto clássico, era composto pelo grande saxofonista Paul Desmond, o baterista Joe Morello e contrabaixista Eugene Wright. Essa formação gravou uma série de três álbuns com o mote “impressões jazzísticas da/do/de…”, ou seja, homenagens a locais inspiradores pelos quais passou a banda. Tal ideia ganhou vida no excelente Jazz Impressions of Eurasia, de 1958, e se esvaiu no decepcionante Jazz Impressions of New York, de 1965. Entre eles, há o aclamado Jazz Impressions of Japan, do ano de 1964 – o mais belo álbum da trilogia e, em definitivo, um dos melhores gravados ao longo dos mais de 15 anos de atividade quarteto.

 
Ao reouvir esse disco, percebo que incomum é a visão estrangeira de determinado país. Por exemplo, todos nós, brasileiros, sofremos com a equivocada acepção, geralmente ligada à promiscuidade, que os gringos têm de nossas terras. Da mesma forma, após ler, recentemente, o maravilhoso Kyoto, de Yasunari Kawabata, fiquei perplexo ao comparar sua descrição nebulosa com a feita por Brubeck, mesmo que entre o marco literário e o musical haja um espaço de apenas dois anos. O pianista, por um lado, relata a mágica atmosfera do país, enquanto, em outra via, denuncia a veloz ocidentalização promovida por seus conterrâneos no arquipélago – sobre a qual falarei amplamente no ultimo texto da semana –, que fez com que parte das tradições nipônicas se modificassem de modo atroz em menos de vinte anos.
O disco se comunica não apenas através suas sensíveis composições. Pequenos textos escritos pelo artista se encontram no booklet, relatando as cenas que inspiraram cada faixa. O álbum nunca foi lançado nas redondezas, portanto, acredito que esta pouco competente tradução, de minha autoria, é a primeira e única  já disponibilizada em português brasileiro. A partir daqui, palavra alguma me pertence. Durante meros 35 minutos, peço que fechem as portas, intercalem som e texto e embarquem na viagem feita pelo quarteto de Dave Brubeck naquela primavera.
01 – Tokyo Traffic:
 
“A cerca de uma hora de Tóquio, a aeromoça da JAL ( Japan Airlines, a maior companhia aérea da Ásia) veio até nós com uma mensagem para que desembarcássemos de antemão, como se tivéssemos uma apresentação programada imediatamente. Temendo ter me tornado outro Phileas Fogg, que esquecera o fusário internacional, olhei em meu contrato, chequei com a aeromoça, e, estranhamente, tudo indicava uma chegada com um dia de antecedência. Não obstante, fomos saldados no aeroporto com a notícia de que uma multidão nos aguardava de forma comportada. Obviamente, eles sabiam que chegaríamos um dia antes, mesmo que nós não tivéssemos sido informados.
 
Uma escolta policial estava a postos para nos apresentar à cidade. O protegido, porém selvagem passeio foi uma experiência aterradora. Estávamos prestes a descobrir, entretanto, que aquela era sua forma mais branda.  Uma volta pelo trafego de Tóquio sem escolta policial é pura insanidade; e a escolta havia sido bem-sucedida apenas em diminuir a velocidade de nosso trajeto. O trânsito de Tóquio é uma hora do rush de Nova Iorque filmada em alta velocidade. O vislumbre de um louco caleidoscópio através da janela de um carro fora nossa primeira impressão do Japão. Na noite seguinte, eu disse aos rapazes para que me acompanhassem em uma nova música, proveniente dessa primeira impressão. O público respondeu bem ao ouvir nossa primeira influência oriental. Decididos, então, chamar a faixa de Tokyo Traffic (Trafego/Trânsito de Tóquio).”
02 – Rising Sun
 
 
“Minha janela de hotel dava para um tranquilo jardim japonês. Além da parede do canteiro se encontrava a inquieta cidade, que parecia se mover incessantemente mesmo durante o sono. Assistindo ao nascer do sol, que iluminava primeiramente o vidro e o aço do horizonte de Tóquio, escrevi Rising Sun, uma impressão de meu primeiro amanhecer no Japão.”
03 – Toki’s Theme
 

“Antes de partir para o Japão, comecei a compor músicas para uma série dramática em produção da CBS Television Network, chamada “MR. Broadway”, estrelando Craig Stevens. Já havia rascunhado a música tema de certa personagem chamada Toki, uma petulante secretária japonesa. Porém, não tinha certeza de que era a música certa para Toki até ver por conta própria as ocidentalizadas, emancipadas profissionais japonesas.

Em sua música ‘pop’, os japoneses parecem autoparodiar-se, usando quartas paralelas e outras ideias ocidentais de como o Oriente deve soar, performizadas com uma batida ‘rock-a-billy’. Para ouvir a autentica música tradicional do Japão, é preciso procurar. Quando perguntei se música japonesa clássica ainda era tocada, me disseram que havia músicos segmentados que continuavam tal tradição, que começou séculos antes na China, mas que raramente se apresentavam ao público.  

Após o choque inicial de ouvir o ‘pop’ Japonês em cafés e rádios, a combinação de ‘batida’ ocidental e sons pseudo-orientais de Toki’s Theme não mais me pareceu incongruente, e sim uma acurada reflexão sobre a estranha mistura de costumes, pensamentos e moral ocidental que está esculpida em neon sobre  a ancestral cultura japonesa.”
04 – Fujiyama
 
“Por séculos, artistas tem pintado o Monte Fuji como a alma do Japão. Voando ao lado do Fuji-San em nosso caminho para Nagoia, ficou evidente que a majestade dessa incrível montanha não foi por eles exagerada. Tentei imaginar uma peregrinação até o topo do Fuji e escrevi a música de caráter pastoral Fujiyama.”
05 – Zen is When
 
“Certa noite, eu estava discutindo Nada (com n maiúsculo) com meu amigo e artista Faure Hareda, junto a um grupo de entusiasmados americanos estudantes de Zen, Haiku e outros aspectos da cultura nipônica. Faure, um zen-budista, me perguntou se eu sabia algo sobre sua filosofia. Reconhecendo aquela familiar sensação de ‘canção pós-concerto’ em meu estômago, e relembrando as palavras de uma música que um amigo certa vez escreveu, iniciei a sessão filosófica (no caso, o sessionempregado no original é um trocadilho com jam session, uma sessão de improviso):
 
Zen is when you’re not thinking to think
Or not thinking not to think.
Zen is when you hunger, eat;
When you are thirsty, drink.’
Todos riram, captaram minha dica, e, no caminho para o restaurante, resolvi que, quando voltasse para casa, iria procurar por aquela canção. Descobri que a havíamos gravado em 31 de janeiro de 1960. Ao ouvi-la novamente, fiquei tão intrigado com a melodia à japonesa de Leon Pober que decidi que a faixa definitivamente pertencia a este álbum. A letra de Bud Freeman é baseada em citações familiares aos estudantes de Zen.
 
‘Zen is when you long for longing no more.
When tensions of joy and grief
Freely fall as caps of snow
Slip from the bamboo left.
So Shi Sei Rai!?
Don’t all these philosophies.
So Shi Sei Rai!?
Sound profoundly Japanese?
Zen is when you live so much in the world;
You live in a world apart
Zen is self-forgetfulness
Zen is the artless art.'” 
06 – The City Is Crying
 
“Passado o concerto em Nagoia, tínhamos um dia de folga e nossos gentis promotores sugeriram que o passássemos em Quioto, a cidade dos dois mil santuários. Após um longo, lindo dia de turismo em uma das mais belas cidades do mundo, retornei ao hotel, passando pelo Palácio Imperial, e me recolhi para um cochilo. Fui então acordado por um súbito estrondo de trovão.  Observando a chuva umedecer a rua abaixo de mim, pensei “A cidade está chorando!” (The city is crying) e o mundo se tornou a melodia de outra impressão musical.”
07 – Osaka Blues
 
“A despeito de nossa agitada chegada, a turnê foi a mais relaxante que o quarteto já experimentou. Deixamos Quioto de trem por volta das duas da tarde. Eu estava em outro mundo, olhando as plantações de arroz e vilarejos se movendo pela janela do trem. Atingir novamente uma cidade industrial, ocidentalizada, foi certamente chocante  em contraste a Quioto. Fomos diretamente da estação de trem para o auditório, e enfrentamos os habituais problemas metropolitanos de, primeiramente, conseguir um táxi, e, em segundo plano, convencer o motorista a nos conduzir após tomar conhecimento do volume de nossa bagagem – bateria, baixo, malas, etc. Depois do concerto houve uma conferência de imprensa. Logo em seguida, voamos para Tóquio a fim de algumas horas de sono, e, então, partimos para shows nos Estados Unidos – da Califórnia a Nova Iorque –, sucedidos por duas apresentações por dia, durante dez dias, na Inglaterra.
 
Osaca foi o destino final de nossa passagem pelo Japão e o início de uma nova batalha ao redor do mundo. Razão o bastante para Osaka Blues.”
08 – Koto Song
 
Koto Song é um blues relacionado à delicada música que ouvi de duas garotas japonesas em Quioto. Dos instrumentos clássicos que apreciei, o que mais me fascinou foi o koto, uma cítara de treze cordas de formato convexo, que descende do saltério chinês. O koto é um instrumento de rara delicadeza e beleza, que, somado a coro ou flauta, parece aludir ao caráter etéreo dos jardins japoneses e de suas paisagens enevoadas. Koto Song é a mais conscientemente japonesa destas músicas, tingida levemente com o melancólico sentimento de deixar nossos novos amigos.”
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Um comentário em “Dave Brubeck Quartet – Jazz Impressions of Japan

  1. […] reconhecido e aplaudido por artistas do calibre de Dave Brubeck (para um texto meu sobre o pianista, cliquem aqui), que imortalizou algumas das ideias sonoras de Guaraldi no estupendo álbum Quiet as the […]

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